segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma cobra estranha no ninho


Estava tudo planejado. O ninho americano em Trestles havia sido construído com a bandeira Yankee tremulando no seu ponto mais alto. Slater, Reynolds e Machado eram os pássaros preferidos da casa, com a missão de defender com unhas e garras seu domínio. Ali, ninguém ousaria ameaçá-los. Pelo menos essa era a ideia.

Quando a competição começou, minhas atenções estavam voltadas para os queridinhos da América. Queria ver até que ponto o localismo iria interferir diretamente nas notas e favorecimentos, neste conturbado momento que o surf mundial vive. Surpreendi-me positivamente.

Kelly estava arrasador de quiver novo. Como sempre, não precisou da ajuda de ninguém para abater, bateria a bateria, suas presas. Aos poucos os intrusos mais indesejados foram sendo despejados da casa. No segundo dia, Taj sofreu com as bicadas de Rob, dando adeus a todos e a briga pelo título mundial, repetindo a mesma novela de sempre.

O inspirado Machado, que mostrou estar com um surf afiado depois da trip na indonésia, aproveitou o rip e usou suas garras para expulsar sem piedades Parko da etapa, logo na terceira rodada. O roteiro estava sendo seguido à risca. A essa altura, alguém ainda teria forças para mudá-lo?

Quando conversei rapidamente com Mick no Rosa Sul, durante o WCT, entendi o porquê ele é casca grossa. Todas as características que julgo necessárias para se formar um campeão, habitam também sua cabeça. E mesmo esbanjando ao longo do ano, um surf muito técnico e forte, os grandes resultados não vinham aparecendo. Até que, com o perdão da mudança de expressão, cutucaram a cobra com vara curta, e ela era albina.

Kelly que vinha fazendo um ótimo campeonato, quando sentiu a presença do predador dentro de sua casa, não soube o que fazer. Ver Slater dominado em poucos minutos é uma coisa rara. Mas aconteceu. Fanning o deixou em combinação logo de cara, e aos poucos, foi matando sua presa onda a onda, para delírio dos Aussies.

O bote final era inevitável. Quando uma cobra albina experiente e venenosa entra no ninho, não há o que a tire dali até seu extermínio estar completo. E Reynolds seria o último a provar o amargo sabor do seu veneno. Fanning não queria saber de esperar, começou sua guerra contra o último pássaro em um ritmo alucinante, atacando-o logo de cara e, como de costume, não dando chances para a vítima.

O território estava dominado. Mick, com merecimentos, é o cara. E a bandeira norte-americana, que enfeitou aquela casa durante todo o campeonato, desta vez foi devorada não por um canguru, e sim, por uma cobra faminta que ainda tem muito veneno pra gastar.

Segura agora que eu quero ver.

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